O homem que venceu a morte correndo, a incrível história de “Álvaro”
Tinha vergonha do corpo, foi convidado a praticar pedetrianismo mas só começaria se fosse às 22 horas, o amigo topou e o ajudou a mudar uma vida de sedentarismo.
Em 1968, o diagnóstico médico foi categórico para Álvaro Pereira de Carvalho: no máximo seis meses de vida. O coração falhava, as palpitações assustavam e o ponteiro da balança batia quase nos 99 quilos. Para qualquer outro, a sentença seria o fim. Para o paulista de Martinópolis, criado no futebol e radicado em Paranavaí, foi apenas o sinal de largada.

“Se forçar você morre, se não forçar também morre. Vamos morrer forçando!”

Foi com essa resposta destemida que Álvaro — carinhosamente conhecido como o Corredor dos 100 km e no futebol por Portuga — aceitou a intimação do amigo Aparício Gonzales Del Rio (Espanhol). Aos 20 e poucos anos, envergonhado das coxas grossas e vestindo calção no escuro da noite, ele deu os primeiros passos às 22 horas. Entre assaduras, sangramentos e a dor do início, ele andava enquanto Aparício trotava ao seu lado. Uma amizade e uma persistência que transformaram o prognóstico de morte em uma trajetória de quase 80 anos de vida.

Álvaro e Aparício no Rio.
No início na modalidade contou Álvaro que ia com Aparício até o Jardim São Jorge, depois aumentou os percursos indo até os Distritos de Sumaré e Mandiocaba, uma vez foram até a cidade de Rondon.

A corrida que começou por sobrevivência virou paixão nacional. O coração, que os médicos disseram ter prazo de validade, virou um motor inquebrável.
Álvaro participou de 25 edições da Corrida de São Silvestre em São Paulo, sua melhor colocação na categoria 38 anos foi 51ª. Sempre levava consigo em seu veículo os amigos Aparício, Senra e Izais Lino (tinha o apelido de Bolachinha, devido ter comprado um tênis para não escorregar e tinha rodelas parecendo uma bolacha). Esteve em 42 Maratonas em várias capitais brasileira (SP, SC, BA, RJ, MJ e outras). Também correu provas de 100 km (Uberaba e Uberlândia foi uma) ficou em 78º lugar. Uma vez correu 100 km dentro da USP. Parou em 2016 em plena saúde, nunca mais o coração deu sinal de parar e nem assustar.

Troféu dos 100 km de Uberaba à Uberlândia/MG.
A primeira de suas 25 aparições na lendária Corrida de São Silvestre veio em 1979. Depois de várias competições renomadas, Álvaro e seus companheiros já com idades mais avançadas corriam para abrilhantar as provas da região e do Sesc, carregando o orgulho de levar o nome de Paranavaí onde quer que fossem. Ele teve como apoio ético e transparente a Relojoaria Cyma (Roberto e o filho Takamori), a Comapa (Dal-Prá), o Grupo Rivesa e a Metanol, com quem sempre manteve uma conduta irretocável: “Nunca aumentei despesas nas viagens em que fomos ajudados, sempre fui e continuo honesto.”

Coletes das provas que participou.
Antes do pedestrianismo, a vida de Álvaro pulsava nos gramados. Pequeno no tamanho (1,63 m), mas gigante na agilidade, defendeu o gol do ACP nas categorias infantil e juvenil (técnico era o conhecido goleiro Mangaba, muitos anos como reserva do ACP), passou pelo D.E.R. como ponta-direita e chegou ao profissionalismo no Corinthians de Presidente Prudente em 1966 (disse que fez muitos gols). A pedido da avó, que pedia para ele largar o futebol e cuidar da mãe, pendurou as chuteiras. Mas a alma de atleta continuava lá.

Hoje, morando desde 1972 em uma pequena chácara no bairro Chácara Jaraguá em Paranavaí, lá tem uma sala onde tem seus troféus e medalhas.

No Rio com Norberto Flor.
Bem próximo de Álvaro está a primeira mina que dá origem ao Ribeirão Surucuá (desagua no Rio Ivaí perto de Paraíso do Norte).
Álvaro olha para trás com a serenidade de quem superou todos os limites. Filho de portugueses (pai oficial da Marinha de Covas do Douro e mãe de Bragança), o lendário corredor dos 100 km resume sua filosofia para a nova geração:

Respeite o seu corpo: Nunca ultrapasse seus limites tentando provar algo a alguém.
Corra com inteligência: Cada distância (10, 20, 30 ou 100 km) exige uma estratégia e um ritmo próprio.
Persista: O esporte é vida e saúde.
Vencer é concluir: A corrida se ganha no final. Não importa se você chegou em 1º, 10º ou 100º — o título real é cruzar a linha de chegada.

Bikes dos filhos e netos em sua chácara.
Prestes a completar 80 anos no próximo dia 21 de dezembro, Álvaro Pereira de Carvalho é a prova viva de que o esporte e a fé curam. O coração que ia parar em seis meses correu maratonas, venceu estradas e gravou seu nome na história do esporte paranaense.

José Carlos Avelar e Álvaro no dia da entrevista.
Paranavaí 31 de agosto de 2026

